Eram duas
solteironas, mãe e filha. As duas tinham uma aparência desconcertante e
pegajosa. Extremamente pobres por pura convicção e capricho. Não se sabe
como a mãe engravidou. Apareceu grávida e pronto. Do pai nada se ouvira. A
menina herdou dela o olhar nervoso e a vocação para igreja neo pentecostais.
Elas não encarnavam a figura das beatas católicas. Eram lhes conferidos alguns
luxos e uma vida de menos penitências. Com o tempo o olhar nervoso se
agravava. Os olhos se esbugalham. A mãe nunca explicou sobre o pai. Seguiam
como Maria, a virgem, mãe de Jesus. Elas seriam eternamente virgens. Porque é
no gozo que o demônio se aproxima. E elas como boas cristãs haveriam sempre de
temer o demônio, como bradou o pastor. Para diminuir a pobreza e gastar o tempo
elas inventavam pequenas costuras que os parentes mais abastados compravam para
esconder nas gavetas. Acreditavam principalmente que deus proveria a próxima
cesta básica. No natal elas chegavam aos montes. Nesse período redobravam sua
fé.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Lá fora choveu poesia
Quero continuar defendendo a poesia sem parecer uma hippie tardia que a minha idade já não permite. Poesia no sentido de tudo que desperta e provoca sentimentos. Mas tenho essa obrigação horrorosa de não parecer boba, nem ingênua.
Sempre que leio uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado acho bonita a poesia que vem na frase de citação da capa ou escondida nos agradecimentos. Mesmo no emaranhado de nomes desconhecidos existe leveza nas palavras que destoam dos conceitos e teorias ali presentes. É como se surgisse um pequeno espaço para florear no meio da dureza acadêmica. Se tem espaço para poesia dentro de uma dissertação ela certamente também cabe em outros lugares.
Eu perdi um amigo, não por morte, mas por afastamento. Foi uma boa amizade que se sustentou por alguns anos e acabou assim como acabam muitos relacionamentos, apenas porque acabam. Esse meu amigo dizia sempre não entender poesia. Ele tentava, mas nunca parecia ter sentido. Sempre lembro disso quando penso no fim da nossa amizade. Existem pessoas que não entendem poesia. Deve ser a mesma inabilidade que eu tenho com a matemática, com a lógica.
Porque a gente nunca é muito estimulado a sentir coisas sobre objetos, criações, textos. Um pouco desse sentido não faria mal aos não vocacionados à poesia. Assim como o meu raso conhecimento de matemática faz bem ao meu dia-a-dia. Mas isso talvez apenas seja conversa de esquerda-fofa-super-light, ou papo de quem perdeu um amigo, ou quem aprendeu que o sentido da poesia se cria.
Ilustração Kathrin Honesta
Ilustração Kathrin Honesta
terça-feira, 27 de outubro de 2015
um desabafo necessário
Alguma tarde de 2001. Voltava pra
casa com a farda da escola adventista, blusa azul e calça folgada. A farda é a
mesma até hoje. Um senhor enfiou a mão no meio das minhas pernas e disse
“gostosa”. Da maneira que a palavra gostosa pudesse soar mais assustadora
possível. Eu tinha onze anos.
Algum sábado à noite de 2002. Escolhi
ficar em casa sozinha para desfrutar da televisão a cabo. Um amigo dos meus
pais e membro da igreja que eles frequentam bate na porta procurando por eles.
Eu aviso que eles não estão em casa e ele na sequência pede um copo d’água. Ele
me prende por trás na cozinha e se esfrega em mim. Ele só parou porque uma moça
bateu na porta e eu corri para atender. Eu tinha doze anos.
Ilhéus, feriado do carnaval de 2003.
Estava com minha família em uma barraca de praia para almoçar e levantei para
ir ao banheiro. No caminho um senhor que estava em outra mesa tocava no pênis e
esfregava os dedos em um gesto que simboliza dinheiro. Fiquei atordoada e
assustada. Eu tinha treze anos.
A parte triste é que não sou
um caso isolado. Demorou anos para organizar essas histórias na minha cabeça.
Para consegui relatá-las. A marca e a dor que elas causam perduraram por muito
tempo. E demorou muito mais para entendê-las. Entender o contexto que permite e
aceita que essas práticas aconteçam.
Na última quarta-feira o Think Olga convidou
homens e mulheres através da hashtag #primeiroassedio relatarem suas histórias
em resposta as mensagens terríveis com cunho sexual e pedófilo que a
participante Valentina (13 anos) do MasterChef Júnior recebeu no
twitter. Foram 29 mil twetes de muitas mulheres e alguns homens sobre assédio
sexual ainda na infância.
No dia não consegui escrever. Mas
agora escrevo porque existe em mim um cansaço que não passa. Estou cansada há
tanto tempo que já nem lembro mais. Cansada de ouvir absurdos sobre feminismo.
Como se ele não fosse necessário em tempo de bancadas evangélicas que usam
argumentos religiosos tortos para defender “a moral e os bons costumes”.
Estou cansada de ouvir que o
feminismo é uma doutrinação absurda e descabida para transformar mulheres em
seres masculinizados e que odeiam homens. Não, ele não é. Mas faltam boa
vontade e honestidade intelectual.
Cansada de ouvir que tudo isso é
mimimi e vitimismo. Estou cansada dos “bolsomitos” que reproduzem ódio e
preconceito a todo instante. Estou cansada de ouvir que foi “a faculdade” que
“fez isso comigo” como se fosse o pior dos seres. Mas essa é a parte verdadeira
e não nego, foi o acesso à educação que transformou a minha história. Do
contrário ainda carregaria aquele aperto no peito e o eterno sentimento de
inadequação e culpa.
O meu cansaço é real. Mas não posso
parar. Preciso continuar. Preciso explicar para adolescentes que conheço e
sofrem os mesmos assédios, e no entanto, escutam absurdos como “isso é coisa de
homem”, “é da natureza dele”, “ele acha você bonita, não seja besta”.
Não, não é.
Parem, por favor, parem.
Tirem o seu machismo do caminho,
porque sim, eu vou passar. E não vai ser cabeça baixa.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
O pijama como protesto
Das
coisas que não entendo sobre moda é a roupa de academia. Gostava quando calça
legging era preta ou cinza. Hoje fico abismada com a variedade de
estampas estrambólicas com as cores mais conflitantes possíveis. Elas não são
apenas feias, são feias e caras.
Na
verdade foi um recurso bem esperto da indústria da moda. Todo mundo sabe que
cores fortes são difíceis de combinar. E ir à academia atualmente é quase um
evento social. Então não dá pra ter apenas quatro ou cinco calças.
Hoje
fiz meu protesto silencioso contra a indústria da moda fitness. Fui à academia
com a blusa do pijama. Já adotei a blusa do pijama como protesto
para outros lugares também. Funciona sempre, não serve para nada, mas eu
recomendo.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Gordurinhas
O que me capturou foi que a garota
tinha uma gordurinha idêntica à minha. Uma pequena massa de gordura que fica na
dobra do braço. Embaixo do ombro, perto do busto.
Eu já não sou mais uma garota
completamente tola que esconde a gordurinha. Ou que não usa vestidos leves e
fresquinhos por causa dela. Até porque a minha gordurinha não vai embora. Mesmo
quando pesava dez quilos a menos, ela estava aqui.
Mas criei um retrato mental da moça
para os dias que não souber lidar com ela. Porque nem todos os dias somos
pessoas suficientemente bonitas, feministas e bem resolvidas. Então, pra esses
dias eu lembro da garota de vestido bonito e gordurinha à mostra.
Ilustração Cecile Dormeau
Ilustração Cecile Dormeau
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
As 10 coisas mais legais de Portugal
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| Alfama à meia-noite |
1. As Ruazinhas de Alfama
Alfama está para Lisboa como o
Pelourinho está para Salvador. Lá você encontra o exótico, histórico e caricato,
ou seja, é excelente para turistas. O bairro é bem simpático, com ruazinhas
labirínticas, janelões enormes e roupas penduradas nas janelas. Aliás, nunca vi
tanta roupa pendurada e nunca achei roupa pendurada algo tão bonito. Tem
senhorinhas robustas e conversadeiras nas janelas também. De noite tem
restaurantes com fado e decoração brega, flores vermelhas de plástico, toalhas
vermelhas, mas você perdoa porque a comida é boa, aliás, a comida...
2. Comida
Sobre a comida o que tenho a dizer é:
bacalhau à Brás, sardinha, polvo à lagareiro, bacalhau à natas, pastel de
Belém, pão, queijo, vinho do porto, feijoada à portuguesa, batatas, cachorros,
ginjinha.
3. Jeito metódico, cartesiano,
literal
Durante o pedido da comida você
descobre que as pessoas tem um jeito metódico de trabalhar. Se um garçom atende
uma mesa ele continua firme no propósito de anotar o pedido e levá-lo até a
cozinha o que impede que no meio do caminho ele possa lhe entregar o menu, por
exemplo.
4. As divergências da língua
A jornalista Andreia Vale disse que o
português do Brasil é português com mel. Bom, eu tenho minhas dúvidas já que lá
existem os diminutivos mais fofos, é “preciso andar um bucadinho”, ouvi no jornal que “caia uma chuva miudinha”. Diz se não é muito amor? Também
gosto da falta de gerúndio, eles colocam “A” antes do verbo de uma maneira que
evita o gerundismo, estão sempre “a fazer, a caminhar”.
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| Vista do Miradouro de Santa Catarina |
5. O Tejo e os miradouros
Enquanto estiver “a caminhar” pela
cidade tem os miradouros, são muitos e a maior parte deles tem vista para o
Tejo. O Tejo é um rio enorme, mas desculpem, eu internalizei que ele era o mar,
eu sei que não é. Mas quando eu ficava parada olhando o horizonte a esmo, eu
estava olhando o MAR.
6. Cabo da Roca
Falando em mar, continuo até hoje sem
palavras para explicar esse lugar. É lindo. Você entende porque acreditavam que
o mundo era quadrado. É o ponto mais ocidental da Europa continental e a frase
de Camões no monumento lá posicionado explica bem o que eu não sei dizer:
“aqui... onde a terra se acaba e o mar começa”.
7. Cascais
Pra continuar falando de mar, areia,
tem Cascais, uma vila portuguesa que faz parte do distrito de Lisboa. Cascais
não é melhor que nenhuma praia brasileira. Mas lá as pessoas estendem toalhas
velhas na areia, metade delas liam algum livro e havia senhorinhas de 60 anos de boas
na areia. Embora a melhor foto que o namorado tirou em Cascais não seja propriamente de uma senhorinha, mas vamos mudar de assunto, ou melhor, voltar pra senhorinhas.
8. Viseu
Sobre senhorinhas, quando for uma
senhorinha de 60 anos queria morar numa cidade como Viseu. Ela é pequena e
charmosa e parece uma cidade ótima para ser velho. Viseu foi eleita algumas
vezes como a melhor cidade pra se viver do país e está entre as vinte primeiras
da Europa. Em Viseu também acontece a Feira de São Mateus. É uma feirinha com cara
de interior, assim como a cidade, tem barraquinhas de churros, parque para
crianças e umas luzinhas super fotogênicas.
9.Feira da Ladra
Sobre feiras, em Santa Clara acontece
às terças e sábados a Feira da Ladra. Uma feira popular que impressiona pela quantidade e excentricidade de coisas velhas e inusitadas. Máquinas
fotográficas antigas, sapatos, bonecas, louça nova ou quebrada. Toda a sorte de
objetos. Com paciência se consegue garimpar coisas legais por lá :)
10. Azulejos
Bom, eu sou louca por azulejos,
queria muito vê-los lá onde é a terra deles. Em Salvador eu
sempre grito, olha lá um azulejo. Nos primeiros dias eu apontei, mas eram
tantos e de vários formatos que eu "quase" enjoei, mas só quase, ainda continuo apaixonada por eles e com vontade de roubar alguns para um dia
colocar em uma cozinha (:
Fotos do namo/fotógrafo/gênio André Vinícius, tem fotos mais legais no blog dele.
O milagre de toda gente
Estou muito perto de concluir que a
coisa mais interessante desta vida é gente. Gente é um acontecimento. Eu gosto
das solares e que às vezes parecem parir o mundo enquanto conversam. Gente que
é feliz e um pouco triste pela consciência de si e da finitude das coisas.
Gente nunca é uma coisa só, algumas vezes pela força do hábito se tornam
monotemáticas e chatas.
Não à toa um dos meus gêneros
favoritos no jornalismo é a entrevista. Acho bonita a capacidade de saber
perguntar e calar existindo ao mesmo tempo. Na minha passagem pela faculdade de
jornalismo aprendi como o ofício de fazer boas perguntas é complexo. Essa
semana vi o documentário José e Pilar e uma das queixas de Saramago é a falta
de propósito de tantas coletivas de imprensa que faziam sempre as mesmas
perguntas. Quando o seu interlocutor parecer chato ou enfadonho repense um
pouco suas perguntas.
Tem gente que quando fala ou escreve
me deixa muda. Mas muda por fora. Cá dentro surge uma confusão de pensamentos
com tamanha aparição. É uma mistura de êxtase com a calma da contemplação das
palavras que brotam. É a vontade de ficar ali, continuar estando, existindo e
acompanhando o pequeno milagre de enfileirar palavras tão bem.
Já que falei em milagre e tenho por
nascimento e pertencimento a capacidade de acreditar em milagre. Acredito que
essas pessoas que conseguem surpreender e calar também sejam pequenos milagres.
E esses milagres estão por aí, acontecendo todo tempo. Mas delego a capacidade
da existência do milagre não ao milagre em si, mas aos olhos do devoto. Algo
como aquele ditado popular “não mostre sua poesia pra quem não é poeta”.
É isso, é isso que tento dizer desde
o início do texto. É preciso haver poesia. Porque poesia é amor. E é amor mesmo
quando fala apenas da dureza da vida. E tem gente que é poesia. E tem gente que
é poesia bruta. Gente que me faz acreditar em milagres. Que faz ver deus em
toda parte. O deus que vive e é toda gente. Sim, gente é a coisa mais
interessante que existe. Mas é preciso haver amor, é preciso ter poesia. É
preciso saber perguntar, ouvir e calar. É preciso acreditar em milagres.
Ilustração Lizzy Stewart
Ilustração Lizzy Stewart
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