quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Entre lugar nenhum


Foi o Rodrigo Amarante que disse que o propósito de toda viagem é voltar. Não voltar apenas no sentido físico, mas voltar-se para quem se era antes da viagem. Não quero falar aqui da experiência da viagem, do conhecer novos lugares, mas sobre um pequeno dispositivo, um pouco antigo, um pouco lento, que nos conduz, um veículo. São muitos os utensílios possíveis, mas aqui venho falar sobre esse que é o mais poderoso sobre mim: o ônibus.

 A minha viagem foi pequena, durou pouco mais que quatro horas. A paisagem era a costa do dendê baiano. O destino o aniversário de oitenta anos da minha avó. Durante ela eu reafirmava a capacidade que as mulheres parecem desempenhar tão bem, fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Então, lia o novo livro ruim da Elizabeth Gilbert e ouvia Caetano e Amarante no replay.  A música romantizava o trajeto e via beleza até onde não deveria. Na casa pobre de beira de estrada e em árvores alaranjadas que brotam aos montes nessa época. Sentia uma saudade e uma ausência. Um estar mim. De um eu que não existiu e quase morou ali na época da faculdade.

O ônibus tem esse poder. Ás vezes ele traz todas as cachoeiras de lágrimas. Ele é o meu catalisador das alegrias, das tristezas e dos pensamentos soltos. Nos dias de TPM ele estranhamente me acalma. Tive um pequeno período de ansiedade e pânico. Era no ônibus também que os meus demônios chegavam. O peito apertava, o ar faltava, a dor no coração era aguda. Morreria ali, certeza. Não uma grande certeza. Era a certeza da ansiedade.

Dizem que onde moram seus demônios também vivem seus anjos. Hoje o demônio do pânico foi embora. Não volte nunca mais e me deixe olhar tranquila pela janela enquanto o sol bate de lado e a paisagem rapidamente se transforma. Porque estamos na Bahia e pulamos da mata do cacau para a caatinga. É a caatinga que avisa que estou perto da chegada. Estou perto de casa. Por ter escolhido ir embora vivo entre casas, entre ônibus, entre lugar nenhum.  

O aniversário da minha vó foi bonito. Meus avós envelhecem com a ternura que só no fim da vida lhes foi permitido ter. Eu fico feliz e grata por ter chegado. Porque a viagem valeu a pena, sempre vale. Mas nem desarrumei a mochila, meia-noite entro no ônibus novamente.

Ilustração Sammy Slabbinck

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Marias

Eram duas solteironas, mãe e filha. As duas tinham uma aparência desconcertante e pegajosa. Extremamente pobres por pura convicção e capricho. Não se sabe como a mãe engravidou. Apareceu grávida e pronto. Do pai nada se ouvira. A menina herdou dela o olhar nervoso e a vocação para igreja neo pentecostais. Elas não encarnavam a figura das beatas católicas. Eram lhes conferidos alguns luxos e uma vida de menos penitências. Com o tempo o olhar nervoso se agravava.  Os olhos se esbugalham. A mãe nunca explicou sobre o pai. Seguiam como Maria, a virgem, mãe de Jesus. Elas seriam eternamente virgens. Porque é no gozo que o demônio se aproxima. E elas como boas cristãs haveriam sempre de temer o demônio, como bradou o pastor. Para diminuir a pobreza e gastar o tempo elas inventavam pequenas costuras que os parentes mais abastados compravam para esconder nas gavetas. Acreditavam principalmente que deus proveria a próxima cesta básica. No natal elas chegavam aos montes. Nesse período redobravam sua fé. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Lá fora choveu poesia


Quero continuar defendendo a poesia sem parecer uma hippie tardia que a minha idade já não permite. Poesia no sentido de tudo que desperta e provoca sentimentos. Mas tenho essa obrigação horrorosa de não parecer boba, nem ingênua.

Sempre que leio uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado acho bonita a poesia que vem na frase de citação da capa ou escondida nos agradecimentos. Mesmo no emaranhado de nomes desconhecidos existe leveza nas palavras que destoam dos conceitos e teorias ali presentes. É como se surgisse um pequeno espaço para florear no meio da dureza acadêmica. Se tem espaço para poesia dentro de uma dissertação ela certamente também cabe em outros lugares.

Eu perdi um amigo, não por morte, mas por afastamento. Foi uma boa amizade que se sustentou por alguns anos e acabou assim como acabam muitos relacionamentos, apenas porque acabam. Esse meu amigo dizia sempre não entender poesia. Ele tentava, mas nunca parecia ter sentido. Sempre lembro disso quando penso no fim da nossa amizade. Existem pessoas que não entendem poesia. Deve ser a mesma inabilidade que eu tenho com a matemática, com a lógica.

Porque a gente nunca é muito estimulado a sentir coisas sobre objetos, criações, textos. Um pouco desse sentido não faria mal aos não vocacionados à poesia. Assim como o meu raso conhecimento de matemática faz bem ao meu dia-a-dia. Mas isso talvez apenas seja conversa de esquerda-fofa-super-light, ou papo de quem perdeu um amigo, ou quem aprendeu que o sentido da poesia se cria.

Ilustração Kathrin Honesta

terça-feira, 27 de outubro de 2015

um desabafo necessário

Alguma tarde de 2001. Voltava pra casa com a farda da escola adventista, blusa azul e calça folgada. A farda é a mesma até hoje. Um senhor enfiou a mão no meio das minhas pernas e disse “gostosa”. Da maneira que a palavra gostosa pudesse soar mais assustadora possível. Eu tinha onze anos.

Algum sábado à noite de 2002. Escolhi ficar em casa sozinha para desfrutar da televisão a cabo. Um amigo dos meus pais e membro da igreja que eles frequentam bate na porta procurando por eles. Eu aviso que eles não estão em casa e ele na sequência pede um copo d’água. Ele me prende por trás na cozinha e se esfrega em mim. Ele só parou porque uma moça bateu na porta e eu corri para atender. Eu tinha doze anos.

Ilhéus, feriado do carnaval de 2003. Estava com minha família em uma barraca de praia para almoçar e levantei para ir ao banheiro. No caminho um senhor que estava em outra mesa tocava no pênis e esfregava os dedos em um gesto que simboliza dinheiro. Fiquei atordoada e assustada. Eu tinha treze anos.

A parte triste é que não sou um caso isolado. Demorou anos para organizar essas histórias na minha cabeça. Para consegui relatá-las. A marca e a dor que elas causam perduraram por muito tempo. E demorou muito mais para entendê-las. Entender o contexto que permite e aceita que essas práticas aconteçam.  

Na última quarta-feira o Think Olga convidou homens e mulheres através da hashtag #primeiroassedio relatarem suas histórias em resposta as mensagens terríveis com cunho sexual e pedófilo que a participante Valentina (13 anos) do MasterChef Júnior  recebeu no twitter. Foram 29 mil twetes de muitas mulheres e alguns homens sobre assédio sexual ainda na infância.

No dia não consegui escrever. Mas agora escrevo porque existe em mim um cansaço que não passa. Estou cansada há tanto tempo que já nem lembro mais. Cansada de ouvir absurdos sobre feminismo. Como se ele não fosse necessário em tempo de bancadas evangélicas que usam argumentos religiosos tortos para defender “a moral e os bons costumes”.

Estou cansada de ouvir que o feminismo é uma doutrinação absurda e descabida para transformar mulheres em seres masculinizados e que odeiam homens. Não, ele não é. Mas faltam boa vontade e honestidade intelectual.

Cansada de ouvir que tudo isso é mimimi e vitimismo. Estou cansada dos “bolsomitos” que reproduzem ódio e preconceito a todo instante. Estou cansada de ouvir que foi “a faculdade” que “fez isso comigo” como se fosse o pior dos seres. Mas essa é a parte verdadeira e não nego, foi o acesso à educação que transformou a minha história. Do contrário ainda carregaria aquele aperto no peito e o eterno sentimento de inadequação e culpa.

O meu cansaço é real. Mas não posso parar. Preciso continuar. Preciso explicar para adolescentes que conheço e sofrem os mesmos assédios, e no entanto, escutam absurdos como “isso é coisa de homem”, “é da natureza dele”, “ele acha você bonita, não seja besta”.

Não, não é.

Parem, por favor, parem.

Tirem o seu machismo do caminho, porque sim, eu vou passar. E não vai ser cabeça baixa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O pijama como protesto


Das coisas que não entendo sobre moda é a roupa de academia. Gostava quando calça legging era preta ou cinza. Hoje fico abismada com a variedade de estampas estrambólicas com as cores mais conflitantes possíveis. Elas não são apenas feias, são feias e caras.

Na verdade foi um recurso bem esperto da indústria da moda. Todo mundo sabe que cores fortes são difíceis de combinar. E ir à academia atualmente é quase um evento social. Então não dá pra ter apenas quatro ou cinco calças.

Hoje fiz meu protesto silencioso contra a indústria da moda fitness. Fui à academia com a blusa do pijama.  Já adotei a blusa do pijama como protesto para outros lugares também. Funciona sempre, não serve para nada, mas eu recomendo. 

Ilustração: Anna Gleeson

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Gordurinhas


Semana passada vi uma moça apresentar em um festival de documentários um filme que ela produziu como trabalho final do curso de cinema. O filme, confesso, não era tão legal.

O que me capturou foi que a garota tinha uma gordurinha idêntica à minha. Uma pequena massa de gordura que fica na dobra do braço. Embaixo do ombro, perto do busto.

Eu já não sou mais uma garota completamente tola que esconde a gordurinha. Ou que não usa vestidos leves e fresquinhos por causa dela. Até porque a minha gordurinha não vai embora. Mesmo quando pesava dez quilos a menos, ela estava aqui.

Mas criei um retrato mental da moça para os dias que não souber lidar com ela. Porque nem todos os dias somos pessoas suficientemente bonitas, feministas e bem resolvidas. Então, pra esses dias eu lembro da garota de vestido bonito e gordurinha à mostra.

Ilustração Cecile Dormeau

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

As 10 coisas mais legais de Portugal

Alfama à meia-noite
1. As Ruazinhas de Alfama
Alfama está para Lisboa como o Pelourinho está para Salvador. Lá você encontra o exótico, histórico e caricato, ou seja, é excelente para turistas. O bairro é bem simpático, com ruazinhas labirínticas, janelões enormes e roupas penduradas nas janelas. Aliás, nunca vi tanta roupa pendurada e nunca achei roupa pendurada algo tão bonito. Tem senhorinhas robustas e conversadeiras nas janelas também. De noite tem restaurantes com fado e decoração brega, flores vermelhas de plástico, toalhas vermelhas, mas você perdoa porque a comida é boa, aliás, a comida...

2. Comida
Sobre a comida o que tenho a dizer é: bacalhau à Brás, sardinha, polvo à lagareiro, bacalhau à natas, pastel de Belém, pão, queijo, vinho do porto, feijoada à portuguesa, batatas, cachorros, ginjinha.

3. Jeito metódico, cartesiano, literal
Durante o pedido da comida você descobre que as pessoas tem um jeito metódico de trabalhar. Se um garçom atende uma mesa ele continua firme no propósito de anotar o pedido e levá-lo até a cozinha o que impede que no meio do caminho ele possa lhe entregar o menu, por exemplo.

4. As divergências da língua
A jornalista Andreia Vale disse que o português do Brasil é português com mel. Bom, eu tenho minhas dúvidas já que lá existem os diminutivos mais fofos, é “preciso andar um bucadinho”, ouvi no jornal que “caia uma chuva miudinha”. Diz se não é muito amor? Também gosto da falta de gerúndio, eles colocam “A” antes do verbo de uma maneira que evita o gerundismo, estão sempre “a fazer, a caminhar”.

Vista do Miradouro de Santa Catarina
5. O Tejo e os miradouros
Enquanto estiver “a caminhar” pela cidade tem os miradouros, são muitos e a maior parte deles tem vista para o Tejo. O Tejo é um rio enorme, mas desculpem, eu internalizei que ele era o mar, eu sei que não é. Mas quando eu ficava parada olhando o horizonte a esmo, eu estava olhando o MAR.  


6. Cabo da Roca
Falando em mar, continuo até hoje sem palavras para explicar esse lugar. É lindo. Você entende porque acreditavam que o mundo era quadrado. É o ponto mais ocidental da Europa continental e a frase de Camões no monumento lá posicionado explica bem o que eu não sei dizer: “aqui... onde a terra se acaba e o mar começa”.


7. Cascais
Pra continuar falando de mar, areia, tem Cascais, uma vila portuguesa que faz parte do distrito de Lisboa. Cascais não é melhor que nenhuma praia brasileira. Mas lá as pessoas estendem toalhas velhas na areia, metade delas liam algum livro e havia senhorinhas de 60 anos de boas na areia. Embora a melhor foto que o namorado tirou em Cascais não seja propriamente de uma senhorinha, mas vamos mudar de assunto, ou melhor, voltar pra senhorinhas. 


8. Viseu
Sobre senhorinhas, quando for uma senhorinha de 60 anos queria morar numa cidade como Viseu. Ela é pequena e charmosa e parece uma cidade ótima para ser velho. Viseu foi eleita algumas vezes como a melhor cidade pra se viver do país e está entre as vinte primeiras da Europa. Em Viseu também acontece a Feira de São Mateus. É uma feirinha com cara de interior, assim como a cidade, tem barraquinhas de churros, parque para crianças e umas luzinhas super fotogênicas.

9.Feira da Ladra
Sobre feiras, em Santa Clara acontece às terças e sábados a Feira da Ladra. Uma feira popular que impressiona pela quantidade e excentricidade de coisas velhas e inusitadas. Máquinas fotográficas antigas, sapatos, bonecas, louça nova ou quebrada. Toda a sorte de objetos. Com paciência se consegue garimpar coisas legais por lá :)
 
Museu Nacional do Azulejo
10. Azulejos
Bom, eu sou louca por azulejos, queria muito vê-los lá onde é a terra deles. Em Salvador eu sempre grito, olha lá um azulejo. Nos primeiros dias eu apontei, mas eram tantos e de vários formatos que eu "quase" enjoei, mas só quase, ainda continuo apaixonada por eles e com vontade de roubar alguns para um dia colocar em uma cozinha (: 

Fotos do namo/fotógrafo/gênio André Vinícius, tem fotos mais legais no blog dele.

O milagre de toda gente


Estou muito perto de concluir que a coisa mais interessante desta vida é gente. Gente é um acontecimento. Eu gosto das solares e que às vezes parecem parir o mundo enquanto conversam. Gente que é feliz e um pouco triste pela consciência de si e da finitude das coisas. Gente nunca é uma coisa só, algumas vezes pela força do hábito se tornam monotemáticas e chatas.

Não à toa um dos meus gêneros favoritos no jornalismo é a entrevista. Acho bonita a capacidade de saber perguntar e calar existindo ao mesmo tempo. Na minha passagem pela faculdade de jornalismo aprendi como o ofício de fazer boas perguntas é complexo. Essa semana vi o documentário José e Pilar e uma das queixas de Saramago é a falta de propósito de tantas coletivas de imprensa que faziam sempre as mesmas perguntas. Quando o seu interlocutor parecer chato ou enfadonho repense um pouco suas perguntas.

Tem gente que quando fala ou escreve me deixa muda. Mas muda por fora. Cá dentro surge uma confusão de pensamentos com tamanha aparição. É uma mistura de êxtase com a calma da contemplação das palavras que brotam. É a vontade de ficar ali, continuar estando, existindo e acompanhando o pequeno milagre de enfileirar palavras tão bem.

Já que falei em milagre e tenho por nascimento e pertencimento a capacidade de acreditar em milagre. Acredito que essas pessoas que conseguem surpreender e calar também sejam pequenos milagres. E esses milagres estão por aí, acontecendo todo tempo. Mas delego a capacidade da existência do milagre não ao milagre em si, mas aos olhos do devoto. Algo como aquele ditado popular “não mostre sua poesia pra quem não é poeta”.

É isso, é isso que tento dizer desde o início do texto. É preciso haver poesia. Porque poesia é amor. E é amor mesmo quando fala apenas da dureza da vida. E tem gente que é poesia. E tem gente que é poesia bruta. Gente que me faz acreditar em milagres. Que faz ver deus em toda parte. O deus que vive e é toda gente. Sim, gente é a coisa mais interessante que existe. Mas é preciso haver amor, é preciso ter poesia. É preciso saber perguntar, ouvir e calar. É preciso acreditar em milagres.  

Ilustração Lizzy Stewart

terça-feira, 16 de junho de 2015

A imperfeição de Maria


Gosto muito de gente que consegue falar bem sobre o próprio umbigo. Que consegue criar uma narrativa interessante sobre si mesmo. É assim com os filmes do Woddy Allen, com a Lena Dunham da série Girls e também com o livro de crônicas da Maria Ribeiro. É necessária uma intensa consciência de si para fazê-lo.

A crônica de abertura de Trinta e Oito e Meio é sobre a dificuldade de ficar nua. Como se abrir tantas camadas naqueles textos também não fosse se despir. Foi a imperfeição de Maria que me impressionou. O amor pelos seus rebentos como ela gosta de dizer. Maria está lá. E não digo de um exibicionismo forçado, é que em tempos de redes sociais o exibicionismo ganhou contornos estritamente levianos.

Claro que ela força o personagem, faz anti-propaganda o tempo inteiro, repete seus defeitos, não gosta de verão, ano novo, mas diz isso da melhor maneira “um ser que encontrou a plenitude na calça jeans”.

O livro é pequeno, tanto na quantidade de páginas como na sua estrutura. Os texto são intercalados por páginas rosas, só consegue usar rosa sem traço de meninice quem chutou o balde da falsa maturidade há tempos. Um dia eu chego lá. Ele é todo recheado de ilustrações da Rita Wainer, são todas bonitas, menos o coração flechado da capa. Achei brega, mas talvez seja algo da falsa maturidade e eu que não entendi nada.

O recurso de negar-se é importante no processo de dar genialidade a algo. Aqui, no caso, a Maria. Que diz de maneira enfática que não é gênia, que faz uma lista de desejos do seu eu perfeito. Mas, por favor, Maria, tenha dó. Me deixa te admirar um pouco, vai. 

sobre corpo, feminismo e gordofobia


Sempre fui chamada de “cheinha”. Nunca fui magra e pra melhorar tenho uma relação intensa com comida. Sempre tive inveja das minhas amigas que colocavam uma porção simbólica em cima do prato quase como arte minimalista. Meus feriados favoritos são aqueles que envolvem comida. E bom, eu sempre fui julgada por ser assim. Mas quem não é julgado por ser qualquer coisa, não é?

Sou alguém que vive entre a gorda e a magra, num limbo corporal, sem ser nada e sempre com culpa. Mas aí no meio do caminho eu encontrei o feminismo que ensina a aceitar o seu corpo, gostar dele como ele é e amá-lo. Ao menos achei que tinha aprendido. Eu fui e ainda sou uma pessoa mais feliz após esse encontro. Passei a comer com menos culpa e também parei de subir na balança e fazer dietas. Não via propósito e acho um hábito muito estranho monitorar o peso. Por que alguém saudável precisa insistentemente saber quanto pesa?

Mas algo aconteceu nesses dois anos de um relacionamento feliz e não sei se necessariamente saudável com a comida. Meu quadril começou sutilmente a aumentar, sento para estudar e percebo uma pequena massa de gordura se acumulando na minha barriga. E não, eu não gostei de nada disso. Não importa quantos textos sobre empoderamento leia ou perceba claramente a gordofobia estampada na mídia. Acontece que eu não consigo me desligar, não consigo aceitar o meu corpo engordando, e não, eu não quero.

Qualquer pessoa que não tenha uma visão ingênua sobre o feminismo sabe que o importante é estar bem no corpo que habita, seja lá qual formato ele tenha. Mesmo isso não diminuí o sentimento de ter perdido a batalha. É muito fácil dizer que a sua beleza não está no seu cabelo, nem no formato do seu corpo, nem em coisa alguma do que em você ou dentro de você. Mas por que entender e praticar isso ainda é tão difícil?

Acontece que assim como o meu corpo, o meu feminismo também é imperfeito. E é muito difícil assumir nossas imperfeições. Vou parafrasear a Amélie para tentar explicar: ainda são tempos difíceis para as mulheres. Mesmo com as conquistas grandes e pequenas por direitos, ainda existe uma pequena batalha que acontece na sutileza do dia-a-dia. E essas batalhas, minha gente, são as mais difíceis.

Imagem do tumblr Outras Meninas

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Talvez



Talvez porque hoje é dia dos namorados. Talvez porque chutei a dieta e tomei café na lanchonete enquanto uma senhora sorridente entregava o café contando que tinha comprado o lugar e eu era primeira cliente dela. Ou talvez porque outra senhora igualmente desconhecida e também sorridente conversava sobre política e gentileza às oito da manhã.

Talvez porque no trajeto do ônibus vi um muro adaptado a uma árvore. Era uma árvore de tronco torto que ficava entre a calçada e alguns prédios pequenos. Construíram o muro com um espaço para o tronco da árvore de maneira que ela conseguia passar pelo muro e pender entre os prédios. E fiquei pensando que talvez o mundo fosse um lugar melhor se mais muros se adaptassem as árvores.

Talvez porque no caminho vi uma senhora fumando no topo de um prédio o que parecia ser o primeiro cigarro do dia. Ela fazia todo teatro que os fumantes fazem soprando fumaça pra cima e repousando a mão no queixo. Não gosto de cigarros, mas admiro a teatralidade dos fumantes e a maneira como eles se levam a sério mesmo na ausência de plateia.

Talvez porque ouvia Paquetá do Rodrigo Amarante ou talvez porque lembrei que esse ano vou ver o Los Hermanos tocar. Talvez porque pela primeira vez em meses cheguei na Cultura e encontrei o livro da Maria Ribeiro. Talvez porque hoje não acordei pensando sobre um artigo que precisava escrever. Talvez o mestrado me roube a poesia diária com a dureza dos textos acadêmicos.


Talvez porque no caminho de volta perdi o ponto em que deveria descer distraída com o livro da Maria Ribeiro e achei graça de tudo. Talvez porque tive que caminhar mais pra chegar em casa e vi um senhor de expressão forte e olhar manso vendendo flores porque hoje é dia dos namorados. Talvez em alguns dias a vida aconteça de maneira mais aguda diante da gente. Talvez só acordei de bom humor.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Perder a casa


Demora um pouco para perceber que a nossa casa não é mais nossa. Demorou para que eu percebesse que a casa onde cresci não era mais minha. Saí aos dezoito no início da faculdade e embora sempre retornasse, nunca mais voltei pra casa. Eu visitei diversas vezes, mas aquele lugar já não era mais meu.

Com o tempo os móveis vão mudando de lugar, trocaram os armários da cozinha. Não sabia onde ficavam as panelas, nem as tolhas. Os objetos cultivados no meu quarto começaram a desaparecer. O espaço vazio do guarda-roupa foi tomado por edredons e lençóis que não eram meus. A mudança foi lenta. Parte das coisas carreguei para a nova casa. Outras encaixotei pra levar depois, até o dia que percebi que nunca ia vai levá-las e não precisava de nada daquilo.

Perder meu cachorro ainda tem sido difícil. Sei que ele escolheu minha mãe como dona, mas não sei lidar com a displicência dele quando estou lá. Meu coração doeu quando ele rosnou na última visita. Dorothy em O mágico de Oz carrega Totó quando ciclone vem. Se não fosse extremamente egoísta teria levado Pit comigo.

O problema é que a casa nova não é de imediato sua casa. A constatação desse fato é aterradora. Você habita lugares, passa por eles, conhece todo tipo de gente e em alguns momentos desfruta da sensação do conforto da casa. Crescer é perder a casa e construir outra. Não uma casa física, mas aprender lentamente que não é apenas uma questão de ocupar lugares, mas criar espaços. Reinventar sua própria casa e ser dono dela.

A primeira mudança de casa foi eufórica, tinha todo ranço da adolescência que quer desesperadamente perder a casa. E eu sempre repito que é a melhor coisa que pode acontecer. Só não é fácil. Talvez por isso a mudança para Salvador foi tão dolorosa. Já tinha perdido a casa e sabia como tudo funcionava. Conhecia o sentimento que acompanha quem vai embora deixando o canto macio e quente do conhecido. 

A história do Mágico de Oz é sobre o retorno para a casa. Eu concordo com a Dorothy que não há lugar no mundo como o nosso lar.  Mas antes tem a estrada de tijolos amarelos, homens de lata sem coração e leões covardes. E no fim, assim como em Oz, são os nossos pés ou sapatos dourados que nos levam pra casa. Com ou sem Totó.

Ilustração Lizzy Stewart

terça-feira, 12 de maio de 2015

sobre livros


Eu não quero parecer chata, nem poser, nem nada. Mas pouca coisa neste mundo me deixa mais feliz do que livros. Digo melhor, tê-los. Livros físicos, de papel, com cheiro de tinta. É difícil explicar pra pessoas comuns e que sempre tiveram acesso a eles a alegria que toma conta de mim quando isso acontece. A única vontade que tenho é parar tudo e ir pra rede.

A rede é lugar tranquilo da minha infância onde me escondia do mundo. Onde o mundo era só meu. Sou filha de evangélicos que com as melhores intenções vencidas do prazo me presenteavam com livros da igreja. Eu também estudava em escola religiosa sem biblioteca e esse ciclo reduzia a quantidade de livros que chegavam até mim.

O meu dia glória só chegou ao descobrir que a biblioteca velha da minha cidade permitia o empréstimo de livros por alguns dias. Fiz diversos malabarismos para levar minha mãe até lá e fazer meu cadastro. Desde então desenvolvi esse amor imenso por bibliotecas, e mais tarde por livrarias. 

O primeiro livro que li da biblioteca foi “O mundo de Sofia” do Jostein Gaarder, era um livro enorme para um garota de treze anos. Eu praticamente vivia com ele, dormia, almoçava, ia pro colégio e claro, perdia muitas horas deitada na rede. Sofia era minha melhor amiga.

Aos 16 anos li Felicidade Clandestina de Clarice Lispector, também emprestado de uma biblioteca. E o meu coração deve ter parado por alguns segundo enquanto lia à crônica. De repente foi como se alguém conseguisse explicar exatamente o que eu sentia. E explicar da maneira mais bonita possível. Passei a amar Clarice incondicionalmente.

“Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.” (Felidade Clandestina, Clarice Lispector) 

Ilustração Katie Harnett

terça-feira, 5 de maio de 2015

O lugar das coisas


Uma maneira de acabar com o argumento batido que a internet é o que fazemos dela é olhar para o tipo de comportamento permitido em cada rede social online. Não é muito diferente das regras da casa tia, em algumas jamais você pode colocar o pé no sofá, em outras pode abrir a geladeira.

O fenômeno do textão no Facebook também é um bom exemplo. A regra é clara, sou esperto e politizado. O Facebook é o almoço de domingo. No Twitter você pode ser engraçado e irônico. Seus parentes, vizinhos e pseudos-conhecidos não estão lá, fale besteira a vontade. No Instagram já faz um tempo que ficou chato postar foto de comida. A patrulha foi grande, parece que ainda é permitido postar fotos do pôr d0 sol ou de arte urbana, ou uma frase qualquer num muro pichado.

Existem outras redes sociais de nicho como o Tumbrl e Pinterest. É certo que a função desses sites nunca ficou muito clara. Uma curadoria de tudo que eu queria ser ou os símbolos que me constituem. O Pinterest é como a casa daquele seu amigo com um quê de artista, todos os móveis conversam entre si, lá nada foi colocado ao acaso, as coisas tem uma história e um porque, e sim, são todas bonitas, ou razoavelmente contempláveis. Moraria facilmente dentro do Pinterest.

A rede social que tem me intrigado é o Snapchat. Cada lugar é estruturado de maneira a permitir certas condutas e a do Snap é clara, quero compartilhar, mas só por alguns segundos, depois tudo cai no vazio. Não é à toa que os adolescentes tomaram conta do lugar. Lembre quando você teve o chatíssimo trabalho de apagar fotos do seu ex do Facebook, ou pior, quando lembrou das fotos da adolescência estampadas no Orkut. Não deixar rastros parece ser a ordem da vez.

Bruno Latour disse que o jornal é a oração diária do homem moderno. As redes sociais onlines são a reza do homem pós-moderno. Continuo incrédula em todas elas, mesmo sabendo da realidade fragmentada e previamente criada apenas para ser, e claro, sigo atualizando.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Conectados


Foi numa segunda-feira distante que aconteceu pela primeira vez. Ela pensou em adiantar o café no que ele já tinha a água fervendo na panela. Achou bonito. Eles agora completavam as frases um do outro. Em outros momentos repetiam em uníssonos.

Começaram a encadear as ideias de maneira parecida. Tinham uma admiração contida porque é fácil admirar o que é espelho. Parecia uma benção do auge da sintonia dos relacionamentos. Ela compreendia os segredos mais velados. Até aqueles que em segredo preferia não ter percebido.

A ligação era tão forte que começaram a desconfiar de algum misticismo em tudo aquilo. Mas alguém comentou que era algo pra poucos. Que só os casais mais elevados chegavam ao nível da comunicação com um olhar distante, um toque no nariz e a premonição velada.

Depois que a graça da simultaneidade passou e o que era raro virou rotina faziam menos barulho. Poupavam-se a voz, já era sabido. O próximo capítulo, o próximo gesto, a mão repousava sobre o ombro.

Experimentaram uma cumplicidade tão intensa que os silêncios da confidência aumentavam os silêncios da distância. Eles de tão conectados que eram tornaram-se displicentes.

Continuavam conectados, mas uma conexão triste. Lenta. Devagar com toda obviedade que se estabeleceu. Conheceram a desgraça que surge das coisas boas apenas para afrontar a ideia comum da benção que é ser compreendido por inteiro.

Permaneceram anos juntos em silêncio absoluto. Devoraram-se por inteiro. 

Repertório do abandono


Desenvolvi alguns padrões de abandono e sempre que possível sigo eles. Se o livro estiver ruim largo ele no meio, se a série desandou e não lembro mais como cheguei ali, abandono, filme então nem se fala, durmo. Não encorajo perder a curiosidade e não realizar nenhum esforço diante do novo ou difícil, mas aprender o momento de ir embora é algo importante na vida.

Desenvolver um repertório de abandono não se aplica apenas a livros ou filmes, mas também a pessoas. Devo soar mesquinha ao escrever isso, mas, pense naquele conhecido que sempre reclama dos seus relacionamentos ou de possuir um dedo podre. O mecanismo do dedo podre é a capacidade de estragar tudo o que se toca (haja pretensão em acreditar que possui tal habilidade) ou o azar de nunca encontrar pessoas legais e sempre ignorar o padrão de escolhas.

Ao contrário do que pode parecer o repertório do abandono não é apenas um tipificador de pessoas e reforço dos estereótipos, ele também é isso, mas é mais que isso. Pode ajudar a fugir de algumas ciladas ao perceber os padrões que se repetem. Os padrões podem não ser regras universais ou regerem o mundo, afinal nem sempre a soma de a mais b indicará o caminho. No entanto, você pode evitar alguns sofrimentos se reparar neles.

Quando Cinquenta tons de cinza ainda ocupava a lista dos mais vendidos lembro de um blog que gostava bastante ter escrito umas das críticas mais ferrenhas que li na internet naquela época sobre o livro. Algum tempo depois entro lá e encontro outra resenha furiosa sobre o segundo livro da série. É isso que tento explicar. Não é necessário ler o segundo livro apenas para reafirmar que ele é ruim. É esperar milagre demais na vida. Melhor assumir o prazer da queixa. É mais honesto.  Abandonar, aliás, é ser honesto consigo.

Abandonar sem conhecer é pobreza, “é julgar saber demais e se interessar pouco”. Não é torcer o nariz frivolamente. É o contrário. É conhecer e saber que não vale a pena. É se conhecer e ir embora. Já sei que é ruim, não quero, não gosto. Repetindo meu meme favorito da atualidade “eu não sou obrigada”.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Salvador

Há quase dois anos moro em Salvador e predomina o sentimento de desconhecimento sobre esse lugar. Salvador é difícil de conhecer.

Eu não sei falar sobre os seus problemas óbvios, seu trânsito caótico ou sua fragilidade quando a chuva vem e olha que ela sempre vem. Muito menos sobre sua periferia, porque falta em mim o conhecimento eminente sobre todas essas coisas.

Falta em mim tantas coisas, aliás.

Salvador tem alguma coisa de feia que a faz bonita. Aqui parece que o tempo foi envelhecendo os prédios e eles ficaram bonitos apenas por estarem feios.

Outra coisa difícil pra alguém que cresceu no interior lá perto da caatinga baiana é a presença do mar. O mar é algo ainda muito misterioso. Ficava sempre impressionada em como as pessoas existem perto do mar e apenas passam por ele. Sempre achei que ele foi feito pra ser visto. Não sei conviver silenciosamente com ele.

Ainda acho esquisitíssimos diálogos como “vamos pela orla ou pela Bonocô?”.

Bonocô também foi outra coisa que causou grande estranhamento. Não a via, mas o nome ou o som dela. Essa sonoridade malandra faz com você duvide da urbanidade daqui. Salvador nunca vai ser urbana.

Outro dia fui com meu namorado ao Pelourinho e não sei como parámos em um estacionamento e logo depois já saímos dentro do Pelourinho. Naquele dia percebi que nunca vou me acostumar com essa cidade. Estávamos numa rua asfaltada e “de repente plim” aquele chão antigo de pedras tortas.

É o plim que torna Salvador difícil. Esse gatilho rápido que não consigo acompanhar. Vejo um prédio de arquitetura moderna sofrível e outro de azulejo colonial caindo aos pedaços. Salvador talvez exista dessa simbiose entre o novo e o velho, o urbano e o arcaico, o feio e o bonito. Eu apenas devo aceitar e sentar sempre na janela do lado pro mar no ônibus.