terça-feira, 19 de junho de 2012

o grande mistério



Ontem uma garota sentou na sacada do prédio, observava a cidade lá do alto. Milhares de luzinhas a baixo dela. Naquele instante uma vaga e ligeira felicidade lhe consumia. Parecia uma incrível obra de arte a cidade vista daquele ângulo. Algo que não atendia aos padrões clássicos e estéticos nem fazia parte de categoria alguma. Era só ela e a imensidão de pessoas com suas luzes. Imaginava se existia alguém naquele instante que sentia o mesmo que ela,debruçada sobre um mundo inteiro. Com luzinhas perdidas que clamavam por serem vistas dentro daquele quadro negro de noite. A garota ficou ainda por uns instantes tentando decifrar o grande mistério, o de ser gente e o de estar perto, como caminhar e ver almas solitárias que acendiam suas luzes para permanecerem ali, distantes e displicentes. Mas no fundo, ninguém nunca sabe. A garota desceu as escadas e apagou as luzes.

Ilustração Maria Eugênia

sexta-feira, 13 de abril de 2012

sampa x buenos


Mafalda ou Mônica? Brigadeiro ou Alfajor? A ideia bacana de comparar características marcantes das duas cidades através de ilustrações minimalistas é da designer Vivian Motta inspirada no conhecido blog Paris x New York. Adorei os desenhos e confesso que prefiro a Malfada.






sobre tpm




o hiato mensal,
a loucura
e o choro

sábado, 17 de março de 2012

sobre a preguiça



"A nossa geração é acusada de ser preguiçosa devido as facilidades que temos a disposição.  O que acha dessa afirmação?

Acho a preguiça uma coisa boa, é uma reação do nosso corpo a esse mundo que parece cheio de possibilidades. Quem tem preguiça desconfia que as coisas, no final, não valham tanto a pena quanto parecem valer. Essas pessoas geralmente estão certas. O nosso problema é viver entre a preguiça e a cobrança de que temos que ser cada vez mais bem sucedidos para mostrar para sei lá quem. 
Hoje é difícil encontrar um ser humano satisfeito. A pessoa não é gorda, mas sente culpa por não fazer exercícios. Não é burra nem desempregada, mas sente culpa por não fazer MBA. Daí as pessoas, essas loucas do cu, acham que nosso problema é a preguiça, quando nosso real problema é a culpa."


Ilustração Irisz Agocs

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

sobre presentes e cadernos


O presente que mais gostei esse ano foi um pequeno caderno com capa forrada com um tecido lindo verde e dourado. Veio dentro de uma bolsa indiana com uma caneta super colorida. Às vezes acontece da gente receber algo assim, cheio de sentimento e lembranças. É raro, mas acontece. Só alguém que conhece você muito bem (como a minha irmã) consegue dar algo do tipo. Um presente sem data especial, barato e comprado em uma lojinha próximo a praia me fez tão feliz. Gosto de cadernos desde que me entendo por gente, gosto do cheiro, de olhar as páginas vazias, de folheá-lo. Quando era criança lembro que no meu aniversário de seis anos pedi um “caderno grande” para minha mãe. Outra recordação foi quando também aos seis ganhei um diário de uma tia. Acho depois dessas datas nunca mais fui presenteada com “cadernos”. Talvez por isso não tive coragem de escrever nele, o deixo de lado, parece que nada é bom o suficiente. Um dos objetivos do ano é conseguir preenchê-lo, porque não existe pena maior que condenar um caderno a viver em branco.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O palhaço


Bom ver o cinema nacional com produções e temáticas diferentes do que costuma aparecer no circuito tradicional. O filme O palhaço está classificado como comédia, mas, caberia tranquilamente em um drama, é estrelado e dirigido por Selton Melo. Um belo filme, seus personagens cativantes, ótima fotografia, mas sua narrativa é lenta, como o próprio Benjamim (Melo), o que não diminui sua qualidade. O palhaço cativa pela delicadeza, traz à áurea do circo, do picadeiro, as apresentações são ingênuas, tudo acontece de maneira rotineira, de cidade em cidade, monta a lona, desmonta tudo. Os momentos de risadas acontecem quando Benjamim se transverte do palhaço Pangaré. Mas o palhaço fora do picadeiro é triste, tímido, desajeitado e estava crise, não sentia mais vontade de fazer o sempre fez. Vivia perturbado enumerando seus problemas: conseguir alvará, comprar ventilador e sutiã novo para Berta. É o ventilador o símbolo da inquietação de Benjamim, não consegue comprá-lo, precisava de identidade, CPF e comprovante de residência. É um filme sobre fragilidades, pequenos desejos e o sentimento de pertencer.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Clarice na cabeceira

Meu conto favorito de Clarice Lispector é Felicidade Clandestina. Adoro Clarice pela forma como retrata o cotidiano, pela inquietação diante da vida e por suas personagens femininas frágeis e profundas. De maneira que quando encontrei Clarice na Cabeceira uma coletânea de contos da autora escolhidos por figuras como Luis Fernando Veríssimo e Maria Betânia fiquei apaixonada pela idéia. Qual o seu conto de Clarice de cabeceira?

A coletânea foi organizada por Tereza Monteiro doutora em Letras pela PUC/Rio e publicada pela Editora Rocco.

É grande a quantidade de coletâneas que surgem todos os anos no mercado com parte da obra de Clarice, o que chama a atenção é que Clarice na Cabeceira é antes de tudo uma escolha afetiva. A frase de Guimarães Rosa citada na Introdução do livro destaca esse caráter afetuoso: “Clarice, eu não leio você para a literatura, mas para a vida”.

Como citações de Clarice já existem aos montes nas redes sociais da vida, deixo aqui alguns trechos dos comentadores que destaquei:

“E a melhor literatura é isso: é a fratura, o corte, o impacto dentro da trivialidade da vida. Clarice dedicou sua vida a revelar este espanto. E é este espanto que deixa seus leitores igualmente atordoados” (Affonso Romano de Sant’Anna sobre o conto Amor do livro Laços de Família)

“Nisso ela é mestre: Magnificar coisas que acontecem ao nosso redor. Seus personagens são aqueles que ninguém quer ver. Um bocado de gente comum passando pelo extraordinário cotidiano que se esconde pela rotina e pelo enfado.” (Fernanda Taki sobre o conto A Língua do “P” do livro A via Crucis do Corpo)

“O que escrever diante de um conto em três partes em que o simples ato de matar uma barata na cozinha de casa ganha a dimensão de uma tragédia grega surrealista? Nada. Não há o que acrescentar. Tenho até vergonha de escrever. Qualquer comentário me parece obsoleto. CLARICE ME DEIXA MUDA.” (Fernanda Torres sobre o conto A quinta história do livro A legião estrangeira)